Eu já fraquejei e chorei em público. Só ela pra fazer isso comigo.
“…eu, agradeço em especial, à minha mãe, como não poderia deixar de fazer, Clarice de Araújo Cavalcante, por todos os dias, inflar meu coração com sua luz e seu amor. Agradeço porque acordei todos os dias de manhã sendo obrigada a olhar em seus olhos através de meu coração. Porque se durmo perdida de sonhos às vezes, ela canta para mim cantiga de vozes, ventos e velas. Da fugacidade de uma vida que vem e que vai…”
É brega, infantil, tolo e adolescente (!) . Mas é que nosso tempo parou bem ali.
Capitalismo maldito. Meu presente nesse dia, é uma carta desaforada. Ela gostava de poesia?
Lembro-me da cor dos cabelos e do sorriso. Lembro-me da coreografia das mãos, dos pés feridos. Lembro-me até dos olhos. Tinham uma cor castanha, que mesmo sendo como qualquer outra, amanhecia diferente. Falava diferente. Sorria diferente. E olhava nos meus olhos, diferente.
Não dormia. Não cansava, não desistia. Brigava. Dançava. Vinha. Sempre achei que tivesse abraços muito grandes. Todos estavam sempre perto dela. Falando com ela. Acordando com ela. Desejando, ela. Eu é que, descuidada perdi o som do seu sorriso. Deve alguém ter subido demasiado o volume de outra música mais nova. E mesmo não havendo nova melodia que goste tanto de ouvir, não lembro. Tem tanto silêncio, que esqueci. Nem sei mais ao certo onde ela está. Ou se costuma vir aqui. Durmo demais pra ficar acordada. E acordada, faço muito pra ficar cansada. Se ela se foi, eu não vi. Se voltou, não percebi. E essa lembrança, às vezes sem modos, não bate à porta de entrada. Entra, me deixa cansada. Não se identifica e eu fico a murmurar razões. Que estranheza me causa sentir essa falta. De alguém que sequer me parece ter existido. Eu me lembro que a chamava de mãe. Deitava no seu colo e chorava. Sentia dor e ela curava. O meu medo não persistia, ela o enxotava pela porta da cozinha. Quando eu sorria, ela pulava. Quando desistia, me encorajava. Deve ser como todas as outras mães. Sem nada de especialmente diferente, só o essencial. O curioso, é que eu a tinha. Mas deve ter sido num outro tempo, com uma outra Elisa. Porque mesmo desmontando as belas fotos que tentam enganar meu olhos e ouvindo as histórias que contam as tias e as vizinhas, eu ainda não acredito. Ora, se ela fosse mesmo tão perfeita, tão mãe, tão forte, tão minha..é certo que não me deixaria. Mas ela se foi, e sem mim. Não acredito mais na pureza das pessoas. E a culpa é dela. Saiu pela porta da frente sem me deixar nenhum bilhete. Virou, fechou os olhos e dormiu. E isso é, com toda certeza, a única coisa de que nunca vou esquecer. Eu era mimada, mas dessa vez não houve exceção nem pra mim.
Ps: aguardo retratação, dona Clarice.