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Olhos de Ressaca

Eu mal balbuciava as minha primeiras palavras e já cantava minha mãe aquela música terrorista do ‘Boi da Cara preta’. Deitava meu ‘serzinho’ ainda tão pequeno na cama quentinha que só mãe tem, ameaçando a paz pueril a que já tive direito – com um carinho na voz que até hoje não consegui entender. Punha-me a  imaginar que teria feito de errado pra um bicho que já supunha eu, tão feio, vir me pegar.  Quando chovia forte e começava a trovejar muito, lá vinham meus queridos mais velhos dizer que aquilo era ‘Papai do Céu’ brigando conosco por nossos erros.

‘Deve ser um velhinho muito chato esse Papai do Céu. E que cara descontrolado. Grita alto demais!’, pensava e enchia de medo o meu coração de criança. Hoje, acredito que se esse tal Papai do Céu existe, tem os mesmos ‘olhos de ressaca’ que Machado de Assis diz ter sua Capitu. Olhos que, até o fim não se confirmando ser de engodo ou não, subvertem os olhos do outro.  

Seria necessário não ter aprendido a ler, ou ao tê-lo feito, fazê-lo em parcas e preguiçosas oportunidades para persistir crendo cegamente que há alguém ‘lá em cima’, coordenando tudo aqui por baixo. E ainda assim, não sei me dizer ateu por mérito, ainda que veja nessa corrente descrente de qualquer ser superior, uma lógica e responsabilidade que inexiste nas palavras que traduzem os dogmas religiosos. Mas toda essa dificuldade é compreensível, e venho advogar em defesa de minha insistente dificuldade em descrer.

Ora, quando cantava minha mãe, a temível canção do ‘Boi da Cara Preta’, já se via nessa atitude, o reflexo dos padrões de comportamento que eu, como cidadã ‘normal’, seguidora dos valores éticos e religiosos impostos pela sociedade em que tive o acidente de cair, havia de me enquadrar. É um molde secular incutido pela Igreja Católica na mente do homem (posto que aqui se está tratando de uma moça que tinha medo do Boi da Cara Preta do Brasil, país essencialmente católico) como instrumento de dominação político-ideológica. Não me parece admissível acreditar que há verdade no amor que prega, tendo assassinado milhares de mulheres a quem crivaram o estigma de bruxa, no século XIII. E a própria justificativa que levanta, por ter se sentido ameaçada pelas críticas que começavam a despontar acerca de seus dogmas, já denuncia o jogo de interesses políticos presente no ato, o que também, não é novidade pra ninguém.

Se corro mais a frente e dialogo com as intrépidas concepções a que chegou Karl Marx no seu século XIX, a respeito dos sistemas de produção, encontro também as ideologias dominantes vertendo estratégias de modulação de pensamentos. Vejo a pirâmide dos dominados e dominantes perdurando em todas as sociedades, ou não haverá crescimento econômico, como querem todas as nações – ou são condicionadas a querer. E comungo com Marx, Nietzschee e Sartre (e tantos outros), que a existência desse Deus – que teve ainda, filho branco, louro e de olhos azuis – é a projeção do homem. É a sustentação de um ideário que prega a manutenção da esperança numa vida melhor, levando o homem a crer num mundo além desse de que tem conhecimento. Tudo para sancionar o poderio econômico através da anestesia do pensar individual.

Esse tal Deus se personificou numa superestrutura político-social- ideológica a que não se pode passar despercebido, e faz o que ‘bem entende’. Passou a ser uma justificativa de extrema relevância para quem quis fazer guerra;  é motivo de  preconceito entre grupos de crenças divergentes; justifica-se por seus dogmas que, desprovidos de justificativas lógicas, impede a discussão do cerne de idéias de que provêm e ainda, de tabus sociais. Para essa instituição, o que vale é o conformismo social, a não busca por conhecimento, pois quem conhece debate, e apenas evitando isso poderá manter seu controle sobre os indivíduos, vez que os faz agir conforme seus ditames.

E é através da carapaça de um Deus da oferta e da procura que o homem lá do topo da pirâmide vinha mantendo sob ‘rédeas firmes’ o caminhar da sua sociedade. Ofereceu ao homem lá da base, que passa fome, sede, dor, frio, desamor, solidão, preconceito, o Deus que não faz diferença entre brancos e negros, ricos e pobres. Planejando fazer perdurar a posição desse cidadão no sustento da macro-estrutura social, o fez depender psicologicamente desse Deus divino para aguentar as ‘dores sociais’a que for submetido e saber agir conforme os ‘desígnios’ Dele.

 Acontece que a difusão de conhecimento vive uma fase ascendente, mérito das descobertas tecnológicas do próprio homem. E a dialética que se desenrola entre os diversos meios de comunicação a serviço do homem, vem movendo com a audácia que é pertinente a toda conjugação de saber, obstáculos ideológicos outrora intransponíveis. Mas tudo isso é apenas parte de um processo que ainda há de se solificar muito mais dentro das correntes de pensamentos filosóficas e científicas. O mais válido é a discussão a que se propõem os adeptos de Deus ou de si, nesse momento.

Seja por que a música que me assustava quando criança ainda toca em vozes que ouço por aí,  seja por estar na base da pirâmidade e ser um produto dela, ou por ter carências dentro da minha formação psicológica-intectual, ainda não sei me bastar em mim mesma e é a esse Deus – ocidental e cristão-  em que não acredito, que peço à noite ajuda para suportar as agruras do dia que amanhecerá logo daqui a pouco. Tal qual Bentinho de Machado, permaneço, sobre Deus, sem saber: terão os olhos de ressaca lhe enganado a razão por precisar, à Capitu, querer? 

Coração Vadio

Meu coração ‘vadio’
Saltita de braços amarrados.
E nem pede,
‘Me livra dessa doentia melodia!’
Mas eu grito,
‘Por favor, 
Alguém me levanta,
Me sacode, me faz herança
Acende a luz pra toda essa dor se acabar!?’

Sou apenas mulher que se finge de fingida
Pra enganar o que quer da vida.

Sou pedaço do pôr-do-sol,
Vara que pesca sem anzol.
Eu digo! Grito escândalo porque Deus mentiu!
Me acreditou ser musa, mesmo sem ser corpanzil…
Me prometeu sorriso de almas e de olhos,
Ele disse que seria para sempre
Mas levou toda tácita poesia,
Todo prato de comida que me reerguia.
Ele me afogou num copo em tempestade sem água
Fez-me juras de amores mil.
Alardeou,
Pincelou uma devorada verdade do que sou.

Receiõ não aguentar, ficar cansada
Precisar parar no meio da rua,
Rasgar o mapa, tirar a roupa…

Na dor que te traz depressa,
Apenas tenho o que me resta.
Uma ácida lembrança que me corrói,
Com uma sordidez coreografada

Nessa dor que me mata sem pressa,
Sobrevivo no intangível que vem de ti.
Meu refúgio e tentação
Que te ama e te resiste,
Que é feliz e que é triste.

Rugas

O sol batia de frente nas testas suadas
Entrava no seio da alma em gotas pingentes
De calor
Irrigava o solo fértil da mente
Que florescia em pétalas de cor
Que desabotoam sempre.

O sol não amarela mais e as gotas voltaram pra nascente
Nas testas não vejo mais as coroas
Que de flores enfeitavam nossa frente

Ficaram, sem dó da gente
Umas fundas rugas que escorregam dos arranhões
Dos espinhos que nos machucaram descontentes

Foram as flores que com medo de não florir
Cresceram esporões pra assustar tua mão,
Mas não houve solução.
Pois ela, sangrando,
Arrancou tudo num repente.

Agonia

Surdo, louco
De um tonto pressuposto.
Amor novo, 
Sem pista nem porto.
Vagão relapso,
Vazio, sem trato.
Ternura, moldura
De água e agulha.

 

Coração desfiado,
Passo melado
Dor irmã,
Musa sem fã.

 

Medo, desvelo
Afasto, correr.
Saudade enlaçada,
Portas fechadas. 
Detetive de casaco
E porta-retrato
Corredores esguios,
Secretos, sem brio
De um mundo brinquedo
Sem disfarces nem zelos.

 

Amar no debite,
Rubro convite.
Ciúme em fuligem,
Formigueiros atingem.
Amar atrevido, 
Coragem, não minto.
Voa, procura
Deleita em doçura.
Amar impostor,
Petisco, flor.
Amar indevido,
Chamas, grito.
Cama, vapor.
Sono, alô.

Sonho mentindo
Sem horas, nem vinco
Sonho sorrindo,
Crendo e indo.

Amo-te ferrenha.
Sem luz, sem porta, sem senha.
Minha melhor agonia, minha alma gêmea.

Eu já fraquejei e chorei em público. Só ela pra fazer isso comigo.

“…eu, agradeço em especial, à minha mãe, como não poderia deixar de fazer, Clarice de Araújo Cavalcante, por todos os dias, inflar meu coração com sua luz e seu amor. Agradeço porque acordei todos os dias de manhã sendo obrigada a olhar em seus olhos através de meu coração. Porque se durmo perdida de sonhos às vezes, ela canta para mim cantiga de vozes, ventos e velas. Da fugacidade de uma vida que vem e que vai…”

É brega, infantil, tolo e adolescente (!) . Mas é que nosso tempo parou bem ali.

 Capitalismo maldito. Meu presente nesse dia, é uma carta desaforada.  Ela gostava de poesia?

 

Lembro-me da cor dos cabelos e do sorriso. Lembro-me da coreografia das mãos, dos pés feridos. Lembro-me até dos olhos. Tinham uma cor castanha, que mesmo sendo como qualquer outra, amanhecia diferente. Falava diferente. Sorria diferente. E olhava nos meus olhos, diferente.

Não dormia. Não cansava, não desistia. Brigava. Dançava. Vinha. Sempre achei que tivesse abraços muito grandes. Todos estavam sempre perto dela. Falando com ela. Acordando com ela. Desejando, ela. Eu é que, descuidada perdi o som do seu sorriso. Deve alguém ter subido demasiado o volume de outra música mais nova. E mesmo não havendo nova melodia que goste tanto de ouvir, não lembro. Tem tanto silêncio, que esqueci. Nem sei mais ao certo onde ela está. Ou se costuma vir aqui. Durmo demais pra ficar acordada. E acordada, faço muito pra ficar cansada. Se ela se foi, eu não vi. Se voltou, não percebi. E essa lembrança, às vezes sem modos, não bate à porta de entrada. Entra, me deixa cansada. Não se identifica e eu fico a murmurar razões. Que estranheza me causa sentir essa falta. De alguém que sequer me parece ter existido. Eu me lembro que a chamava de mãe. Deitava no seu colo e chorava. Sentia dor e ela curava. O meu medo não persistia, ela o enxotava pela porta da cozinha. Quando eu sorria, ela pulava. Quando desistia, me encorajava. Deve ser como todas as outras mães. Sem nada de especialmente diferente, só o essencial. O curioso, é que eu a tinha. Mas deve ter sido num outro tempo, com uma outra Elisa. Porque mesmo desmontando as belas fotos que tentam enganar meu olhos e ouvindo as histórias que contam as tias e as vizinhas, eu ainda não acredito. Ora, se ela fosse mesmo tão perfeita, tão mãe, tão forte, tão minha..é certo que não me deixaria. Mas ela se foi, e sem mim. Não acredito mais na pureza das pessoas. E a culpa é dela. Saiu pela porta da frente sem me deixar nenhum bilhete. Virou, fechou os olhos e dormiu. E isso é, com toda certeza, a única coisa de que nunca vou esquecer. Eu era mimada, mas dessa vez não houve exceção nem pra mim.

 

Ps: aguardo retratação, dona Clarice.

 

Nuvem

De quando em quando
Tua voz sangra de um natural exagero
Acidenta-se em tangos
Culpando-me sem freios

 
Meus dias escorrem nublados
Na cama espero uma chuva
Cair de uma nuvem de mau grado

 
É ela que te cega inteira
E que me deixa tão pesado

 

Desata esses teus olhos
Eles não conseguem mais enxergar
Tem uma tarde nas pupilas
Sem nenhum sol pra deitar

 

Passei cantando a toda gente
Os dias que foram nossos
Mas se neles não acreditas
Então se puseram mortos

 

Ainda lembro bem de tê-los tido 
Pois não pode alguém ter sido mais louco
E nem sei se é seu tudo que era nosso,
Mas se diz-me não lhe amar mais que outro
Saiba, feliz, que lhe amo o mais que posso.

 

 Por Diego Moreira e Lisa Neves.

Poeira

Lembro-me de ter deixado aqui
Debaixo da poeira do retrato,
O sentido de algo que não sei
De alguma outra coisa que não acho

 
Como um sonho que ainda agora tive
E que se vai após eu ter acordado
Ergo a mão para apanhá-lo e olho-o
Marejado à impressão de algo já largado

 

A vida passa como um velho ensejo
De algo meio morto que me vem sem maldade
Mas braveja em meu peito com um estranho receio
De que tudo isso seja uma simples saudade…

 

Por Diego Moreira e Lisa Neves.

Vício

Silêncio.
Os desfiles acabaram
Cabarés se solaparam
Apagou-se uma estrela
Eu sabia
É o fim que se anuncia.

 
De perfume barato,
Sapatos descalços,
Mãos em falso.

 
Nosso tempo se derrete
Corre peralta feito moleque
Pendurei-me em preto e branco
Envelheço ou alavanco
Caminho a passos mancos

 

Tua dor é dicotomia
Leito cujo ciclo não me atraia
Mas que palpita em meu cerne
Recorda teu amor para que eu espere 

Mas a estrada é madrasta
Devorada de curvas fechadas
Não posso parar
Ou então me perco dos pés
Fico aturdida sem poder voltar
Malograda e sem fé

 

Essa vida é carrasca
Fingir é torpe ilusão
Em tudo você é minha razão
Se contra ti conspiro
De certo te dedico,
Morro, pois cremei meu coração

 

Amor, meu grande amor
Vivo sem regras
Apenas teu vício
Podes vir despenteado,
Farroupilho, maltratado
Vem cambaleando
Vem deitado, vem cansado
Disponha-se de entretantos,
De figuras, de couraça
Ludibria-me com tua voz a se pôr,
Olha nos meus olhos
E nem palavra diz,
Eu vou.

 
Vem ser apenas tu mesmo,
Meu entrevero e perfeito amor.

Ensaio

Os gritos de você
Lembram-me em desatino,
O porquê de não poder me bem-dizer

Vivo vivendo de tolices e paixões
Naufragada num mar raso
Por tiros de canhões
Temerosa, cego ante tudo
A maior mazela,
É o espírito surdo

Fechei-me num quarto escuro
Cerrei minhas janelas
E ensaiei por várias vezes
Um adeus pra te dizer
Pus-me a imaginar baixinho
O que haveria depois do fim
Se acaso cantariam as músicas
Se ficaria o teu perfume preso aqui
Pego-me num vai-e-vem de saudade
Chegando alheia e sem demora
Me impede e depois chora
Flamejando que só o fim
Pode queimar todo o antes e o agora,
Soprar das cinzas da marola,
O outro eu que vai surgir de mim

Mas posso ser e renascer mil vezes
O tempo vai fazer na lembrança
Flutuar uma saudade
Intensa feito criança
E como ninguém percebesse
Ela vem de ardilosa vilã
Dissimulada, tecendo sua rede
Nela não posso me mexer
Pois quanto mais tentar fugir,
Mais estarei presa a você

O grande trunfo da saudade
É que ela não pára, não dorme
Lembra de cada golpe
E vive por sobreviver.

Se eu tivesse

O melhor de tudo são as surpresas do caminho.

 

 

Eu nunca saberia dizer ao certo, o que foi que nos aconteceu.  Onde é que estamos, aonde foi que paramos. Tudo que eu tenho aqui, é uma enorme saudade que me faz lembrar de tudo, e estar sempre com todos vocês. Pra fazer cantar a dor e a saudade de uma [vida]  que nos deixou, letra de Silvio Olinto.  TODA ORGULHOSA eu :)   ps: mesmo que esse leso tenha sido enganado!

Se eu tivesse

Letra:  Silvio Olinto

Se eu tivesse tudo que eu queria ter
Trocaria tudo por você, só você…
Os meus dias são tristes e sem cor.
Sem o seu calor, tudo é dor… Solidão… 
Fecho os meus olhos e vejo você
Sempre o Sol, o meu céu…
Sorrindo para mim…
Com toda a sua luz…

Nos meus sonhos, vão sempre ter voce
Seu sorriso é o que me faz viver
Vou guardar aqui dentro de mim
Seu sorriso lindo até o fim

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